Os veículos de comunicação sempre desempenharam um papel importantíssimo na sociedade. O trabalho árduo em interligar a informação e o entretenimento, selecionando imagens, capturando sons, elaborando textos, apresentando espetáculos, noticiando fatos. No Brasil, a empresa de mídia que mais se destaca é a Rede Globo de Comunicação, que foi fundada em 26 de abril de 1965, sob o comando do jornalista Roberto Marinho.
A posição da Rede Globo ao decorrer desses anos não se deve apenas ao fato da emissora alcançar índices elevados de audiência, mas também graças a capacidade que a mesma tem em interferir na vida social e política do Brasil. Valério Cruz Brittos e César Ricardo Siqueira Bolaño, autores do livro Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia (2005), tenta ilustrar a influência e a pressão que a emissora exerce, graças a sua posição hegemônica, através de episódios marcantes da história do nosso país. Um dos momentos relembrados no livro foi a polêmica causada por conta da divulgação dos resultados da eleição para governador do Estado do Rio de Janeiro, em 1982. A Rede Globo foi acusada de participar da tentativa de fraude contra a vitória de Leonel Brizola, favorecendo o oponente Moreira Franco. Começou então a ser noticiado resultados favoráveis a Moreira, tendo como ápice o momento em que Leonel Brizola reclamou da cobertura da emissora no programa Show das Eleições. A passagem abaixo, retirada do Memória Globo, espaço disponível no site oficial da emissora, explica como foi esse embate:
'No Show das eleições, exibido ao vivo, Brizola fez insinuações a respeito dos números divulgados pela Rede Globo. O então diretor da Central Globo de Jornalismo, Armando Nogueira, entrou no ar para contestá-lo, e não aceitou que o candidato colocasse em dúvida a seriedade do trabalho dos profissionais da emissora. Brizola respondeu, então, que estava apenas registrando uma situação existente no Rio de Janeiro, sem considerar, de forma alguma, que houvesse má-fé. Armando Nogueira pediu que Brizola fizesse um desagravo à Rede Globo e ao TRE, afirmando que tanto a emissora quanto os magistrados estavam conduzindo seus trabalhos com precisão e critério. Brizola reiterou que em nenhum momento havia colocado em dúvida o trabalho do TRE e da Rede Globo.'
Outro episódio citado no livro Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia, foi a omissão da emissora na cobertura da campanha das Diretas Já, em 1984. Enquanto as manifestações a favor das diretas aconteciam em várias cidades brasileiras, e recebia a cobertura jornalística das outras emissoras, a Rede Globo as ignorava intencionalmente como parte de sua estratégia e identificação com o regime militar. Segundo informações da emissora, enquanto muitos a engajavam a se envolver nas manifestações pelas Diretas, os militares pressionavam justamente o contrário. O diretor dos telejornais da Rede Globo deu seu testemunho à favor da emissora e de seu responsável supremo:
'Acho que foi a maior pressão que a Rede Globo já sofreu. Eu acompanhei um pouco a luta intestina aqui dos profissionais, tentando se solidarizar com o Dr. Roberto, que recebia pressões, talvez as maiores das quais eu fui testemunha.' (GUIMARÃES, Woile. Diretor dos telejornais da Rede Globo de Televisão)
Após analizar a força que a Rede Globo exerce sobre a política, citando momentos marcantes da história do nosso país, Valério Brittos e César Bolaño elaboram quatro hipóteses que podem explicar esse tal poder supremo da emissora. A primeira hipótese seria referente ao alcance e aos índices elevados de audiência, garantindo uma vaga entre as maiores redes de televisão do mundo. Com audiência elevada e consequentemente lucros excelentes com campanhas publicitárias, fica fácil da emissora elimitar seus concorrentes, permanecendo num patamar elevado. A segunda hipótese seria referente a fragilidade em que nossa política se encontra. Ao longo dos anos, os principais partidos políticos foram se desestruturando, favorecendo a atuação da mídia, uma vez que os partidos não tinham mais condições em transmitir informações relevantes para a sociedade. Com isso, as empresas de comunicação passaram a atuar de frente nesse setor. A terça hipótese apresentada, é bem interessante, e diz respeito a dificuldade que o jornalista e empresário Roberto Marinho tinha em separar o privado do público. Explicando com outras palavras, sabemos que a televisão é uma concessão pública, e por mais majoritária que fosse a palavra de Roberto Marinho, a televisão é, por direito, um bem público. Em muitas entrevistas dadas, ele engrandece suas obras realizadas junto à Rede Globo de Televisão como uma maneira de servir o país. E por fim, a última hipótese responsável pela “chave do sucesso” da emissora seria graças ao “agente legitimador” criado pela Rede Globo, em criar e reproduzir o clima eufórico que se instalara nos grandes movimentos políticos do país.
O livro Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia, traz aspectos e fatos importantes para compreender os mecanismos dessa grande potência midiática. Dando enfoque a análise na economia política das comunicação, a obra detecta não apenas o lado empresarial da Rede Globo, mas um conjunto de acontecimentos que foram decisivos para a história da emissora. Não é à toa que o “padrão Globo de qualidade” é espelho para tantas outras emissoras que estão atuante na televisão brasileira.
(Artigo Baseado no livro 'Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia)
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